sábado, 16 de agosto de 2014

Che Guevara poeta?


Che Guevara poeta?

Poucos sabem que Che Guevara escreveu algumas poesias. Claramente, ele era um lutador que escrevia e não um poeta lutador, mas, apesar disso, seus poemas não são ruins.
Che lia poesia desde sua adolescência. Era notória sua fama dentre os guerrilheiros de grande leitor. Todos temiam quando Che ia para a linha de frente, porque alguém teria que carregar sua mochila que era muito pesada de tantos livros!
Quando foi capturado na Bolívia, acharam em sua mochila, além do diário da guerrilha (que eu tenho em Português e foi o primeiro livro dele e sobre ele que li, antes do 25 de Abril), um caderno verde em que Che vinha, há 10 anos, transcrevendo suas poesias prediletas. Era uma antologia pessoal de poesias que contava com o poeta cubano Nicolás Guillén, Neruda, César Vallejo e Felipe León.

Esse caderno verde de poesias de Guevara foi publicado em espanhol (e eu espero em breve poder comprar em português!).

Alguns dos seus poemas (traduzidos em português):

CRISTO TE AMO

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Este poema, creditado a Guevara, segundo informações de Francisco Orban, não é de sua autoria, apenas encontrava-se entre os papéis de Che
… provavelmente um de seus poema preferidos (de um poeta espanhol)…
 


“Deus, te amo.
Não porque desceste de uma estrela,
Mas porque me revelaste que o homem tem lágrimas, angustias e chaves para abrir as portas da luz,
Sim, Tu me ensinastes que o homem é deus.
Um pobre deus crucificado como Tu.
E aquele que está a Tua esquerda no Gólgota, o mal ladrão,
também é um deus.”


O MAR ME CHAMA COM SUA AMISTOSA MÃO

O mar me chama com sua amistosa mão.
Meu prado – um continente -
se desenrosca suave e indelével
como uma badalada no crepúsculo.

DE PÉ A LEMBRANÇA CAÍDA NO CAMINHO

De pé a lembrança caída no caminho
cansada de me seguir sem história
esquecida numa árvore do caminho.

Irei tão longe que a lembrança morra
destroçada nas pedras do caminho,
seguirei sendo o mesmo peregrino
de penhascos dentro e sorriso a fora.

Essa vista circular e forte
em um mágico passe de muleta
esquivou em minha ânsia toda meta
convertendo-me em vetor da tangente.

E não quis olhar para não te ver,
rosado toureiro de meu destino,
me convidar com gesto displicente.

AUTO-RETRATO OBSCURO

De uma jovem nação de raízes de erva
(raízes que negam a raiva da América)
venho até vocês, irmãos nortenhos

Carregados de gritos de desalento e de fé
venho até vocês, irmãos nortenhos,
venho de onde viemos os “homo sapiens”
devorei quilometros em ritos transumantes
com minha matéria asmática que carrego como uma cruz
e na entranha estranha de metáfora desconexa.

A rota foi ampla e muito grande a carga
persiste em mim o aroma de passos vagabundos
e ainda que o naufrágio de meu ser subterraneo
– apesar de que se anunciam margens salvadoras -
nado displicente contra a ressaca,
conservando intacta a condição de náufrago.

Estou só frente à noite inexorável
e certamente abandono o demasiado doce dos bilhetes.
Europa me chama com voz de vinho envelhecido
alento de carne loira, objetos de museu.

E nos clarinetes alegres de paises novos
eu recebo de frente o impacto difuso
da canção, de Marx e Engels,
que Lenin executa e entoam os povos.

E AQUI

“Sou mestiço”, grita um pintor de paleta acesa,
“sou mestiço”, me gritam os animais perseguidos,
“sou mestiço”, clamam os poetas peregrinos,
“sou mestiço”, resume o homem que me encontra
na dor diária de cada esquina,
e até o enigma pétreo da raça morta
acariciando uma virgem de madeira dourada:
“é mestiço este grotesco filho de minhas entranhas”.

Eu também sou mestiço em outro aspecto:
na luta em que se unem e repelem
as duas forças que disputam meu intelecto,
as forças que me chamam sentindo das minhas vísceras
o sabor estranho de fruto encaixotado
antes de atingir sua madurez de árvore.

Me volto no limite da América hispânica
a saborear um passado que engloba o continente.
A recordação desliza com suavidade indelével
como o distante tinir de um sino.

VELHA MARIA, VAIS MORRER

Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado ne saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero faler-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta,avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos veverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte conjugar-te com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril da esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.

EU JURO!
EU SEI! EU SEI!


Eu sei! Eu sei!
Se sair daqui, o rio me engolirá…
É o meu destino: hoje devo morrer!
Mas não, a força de vontade pode superar tudo
Há obstáculos, eu reconheço
Não quero sair.
Se tenho que morrer, será nesta caverna.

As balas, o que podem as balas fazer comigo
se meu destino é morrer afogado? Mas vou
vencer o destino. O destino pode ser
conseguido pela força de vontade.

Morrer, sim, mas crivado de
balas, destroçado pelas baionetas, se não, não. Afogado não…
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando.

(Ernesto Guevara – 17 de janeiro de 1947)

CONTRA O VENTO E AS MARÉS (escrito na Bolívia a Aleida quando já sabia que era o começo do fim)

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhes seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução
Nada que nos pode unir terá força maior.

CANTO A FIDEL

Vamos, ardoso profeta da alvorada,
por caminhos longínquos e desconhecidos,
liberar o grande caimão verde* que você tanto ama…
Quando soar o primeiro tiro
e na virginal surpresa toda selva despertar,
lá, ao seu lado, seremos combatentes
você nos terá.
Quando sua voz proclamar para os quatro ventos
reforma agrária, justiça, pão e liberdade,
lá, ao seu lado, com sotaque idêntico,
você nos terá.
E quando o final da batalha
para a operação de limpeza contra o tirano chegar,
lá, ao seu lado, prontos para a última batalha,
você nos terá…
E se o nosso caminho for bloqueado pelo ferro,
pedimos uma mortalha de lágrimas cubanas
para cobrir nossos ossos guerrilheiros
no trânsito para a história da América.
Nada mais.

* Caimão verde era o nome alegórico atribuído à ilha de Cuba.

Quando partiu para a Bolívia deixou um poema a Aleida (a mulher dizia que ele rasgava muitos dos seus poemas, pois era muito exigente e os achava de má qualidade:

Adeus, minha única
não tremas ante a fome dos lobos
nem no frio das estepes da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que a estrada se perca....

domingo, 3 de agosto de 2014

PARA MIM O MELHOR MUITO ALÉM DO SEU TEMPO

Todos sabemos que a PIDE era pervesa e má.
Que fez muito mal a muitas pessoas, ao Zeca Afonso incluído.

Mas uma grande parte do mal que fez ao nosso Zeca Afonso tornou-se num GRANDE BEM PARA MUITOS PORTUGUESES/AS

Passo a explicar: O nosso Zeca Afonso era professor e nas horas vagas cantava umas baladas, fazia uns poemas e musicava-os.

A PIDE proíbiu-o de leccionar em 1968, se não estou errada na data, e ao ser privado do seu modo de vida teve que se dedicar, a tempo inteiro, para se sustentar e à família, áquilo que sabia fazer além de dar aulas: Lindas canções , belísimas baladas e espudendas canções de intervenção.

Obrigada PIDE temos muito mais Zeca
Graças a ter existido a PIDE


Os seus ex-alunos disseram que ele foi UM GRANDE PROFESSOR

EU QUE NÃO TIVE O PRAZER DE SER ALUNA DELE TIVE O PRAZER DE O OUVIR CANTAR

PARA MIM O MELHOR MUITO ALÉM DO SEU TEMPO






O Heroi também gostava do miminho da mamã Célia de la Serna

O Heroi também gostava do miminho da mamã Célia de la Serna

A frase é um extracto de uma entrada do Che no "Diário do Congo" - a "Pedra" pela altura em que lhe dão a notícia que a mãe está moribunda (quando escreve pensa que a mãe ainda estará viva, pois a notícia da morte da mãe chega-lhe com atrsaso

Che com a sua filha Aleidita

Che com a sua filha Aleidita

A frase é da filha já mulher e médica como o pai

No poema Tânia refere-se a mim

Cá do além, eu te respondo,
minha satánica rival,
para o CHE eu fui diferente,
uma mulher sem igual.

Fui companheira de armas,
fui servil e apaixonada,
nunca pensei que iria,
minha alma ser "desonrada"
por vil pessoa
que naquele tempo,
ainda de fraldas andava.

O home é meu e cá o tenho guardado,
enquanto andas a desejá-lo,
vai lutando minha menina,
pode ser que o mereças e ...
até comigo partilhá-lo.

Estou a brincar, menina
sei que és lutadora e persistente,
do género que hoje não há :
- que lute pelo ideal,
tal como eu fui, (embora digam que não)
não rima, mas é verdade.

Poema dedicado à Tania,La Guerrillera del Che escrito por Mariano Guimarães



No poema Tânia refere-se a mim