sábado, 11 de agosto de 2012

telegrama para Tete


Quem será este careca?

Não disseram aos pequenotes que o Ramón era o seu papá, nem mesmo quando a Aleidita disse à mãe que ele estava apaixonado por ela (Amor sem palavras)

O estudante argentino

 
 
 
Num dos seus últimos exames para se licenciar em medicina o jovem Ernesto Guevara de La Serna, um examinador, chocado por o ver descascar uma laranja, sentado calmamente, balançando as pernas, numa mesa de mármore do anfiteatro, admoesta-o. "Parece que o senhor está com muita fome"
Responde Ernesto (mais tarde conhecido mundialmente por comandante Che Guerava: "É verdade. Estamos à espera desde as 7 da manhã é meio-dia e ainda não almocei"
O professor: "Muito bem. Vamos já tratar de si"
Guevara está numa posição critica e esta troca de palavras espalha-se por toda a Faculdade e os colegas vão assistir ao exame.
As perguntas do júri multiplicam-se. Ele vai respondendo com toda a pertinência. Intensificam-se as perguntas e ele aguenta a parada. Já não é um exame, mas sim um duelo. Finalmente, o examinador levanta-se, estende-lhe a mão e esboça um sorisso: "Doutor, não posso deixar de lhe atribuir uma menção honrosa"

SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA

SAUDAÇÃO A CHE GUEVARA de Manoel de Andrade


No sonho da liberdade

onde cada mártir renasce,

onde não há homem sem terra

onde não há povo sem face,

num tempo, gesto de sangue

no sangue, gesto de amor,

no amor de quem se deu

como um perfume de flor

e nessa flor de montanha

aberta pro continente

nesta beleza tamanha

na minha fé deslumbrante

tu estás meu Comandante

numa saudade bem clara

dos que morrem e que renascem

contigo, Ernesto Guevara.

.

No nosso ódio indigesto

na voz da conspiração

na passeata de protesto

em cada homem sem pão

em cada cidadão livre

que é metralhado na rua

no seio de cada greve

no salário de quem sua

na opressão e na fome

nesse mal que nos consome

como farol claro e forte

surge tua imagem, teu nome

teu braço de guerrilheiro

como um fuzil justiceiro

nos apontando o roteiro

em busca da liberdade.

.

Nas pátrias negociadas

desta América sofrida

na ditadura instalada

na terra não repartida

em toda prisão injusta

em todo estudante morto

em cada homem sem rosto

de quem outro vive à custa

no estômago agonizante

nos punhos que desabrocham

pra rubra flor do combate,

tu estás, meu Comandante.

.

Enquanto a noite se escorre

na garganta da ampulheta

as gerações se preparam

para a estação da colheita.

A semente está brotando

na flor da revolução

e a consciência do povo

vai tomando posição.

Tu semeaste a bom tempo

os grãos dos frutos por vir

que levados pelo vento

no estampido dos metais

brotam nos campos ao sul

das terras continentais.

.

Adios, adios, hasta siempre

meu imortal Comandante,

na terra há flores se abrindo

no peito a fé triunfante

no tempo um caminho aberto

e nele os homens sorrindo

num largo gesto de hermano

na busca de um mundo novo

da pátria purificada

para a alegria do povo.



Manoel de Andrade
Curitiba, Outubro de 1968

A Pedra



(Uma entrada, muito comovente e terna, do Diário de Che Guevara no Congo)

Disse-me como se devem dizer estas coisas a um homem forte, a um responsável, e eu agradeci-lho. Nem a preocupação nem a dor me enganaram e eu tratei de não mostrar nem uma coisa nem outra. Foi tão simples!
Além disso, havia que aguardar a confirmação para estar oficialmente triste. Perguntei a mim mesmo se podia chorar um bocadinho. Não, não podia ser porque o chefe é impessoal; não é que se lhe negue o direito de sentir, simplesmente não deve mostrar o que sente sobre as suas coisas, sobre as dos seus soldados, talvez.
- Foi um amigo da família, telefonaram-lhe avisando-o de que estava gravemente doente, mas nesse dia eu tinha saído.
- Gravemente? Quase a morrer?
- Sim.
- Não deixes de avisar se houver mais qualquer coisa.
- Assim que saiba, mas não há esperanças. Creio.
O mensageiro da morte já se tinha ido e não havia ainda confirmação. Esperar era a única coisa que podia fazer. Quando a notícia oficial chegasse, decidiria então se teria ou não direito a mostrar a minha tristeza. Inclinava-me a pensar que não.
O sol da manhã golpeava forte depois da chuva. Não havia nada de estranho nisso; todos os dias chovia e depois o sol saía, começava a apertar e expulsava a humidade. Pela tarde, o arroio seria outra vez cristalino, embora nesse dia não tivesse caído muita água nas montanhas, estava quase normal.
- Diziam que a partir de 20 de Maio deixava de chover e até Outubro não cairia uma gota.
- Diziam... mas dizem tantas coisas que não são verdade.
- Será que a natureza se guia pelo calendário? Não me importava se a natureza se guiava ou não pelo calendário. Em geral, podia dizer que não me importava nada de nada, nem esta inatividade forçada, nem esta guerra idiota, sem objetivos. Bom sem objetivos não mas eles estavam tão indefinidos, tão diluídos, que pareciam inalcançáveis, como um inferno surrealista onde o castigo eterno fosse o tédio. E, além disso importava-se. Claro que me importava.
Há que encontrar uma maneira de acabar com isto, pensei. E era mais fácil pensá-lo, uma pessoa podia fazer mil planos, qual o mais tentador, depois selecionar os melhores, fundir dois ou três num, simplifica-lo, vertê-lo no papel e entrega-lo. Tudo acabava ali e havia que começar de novo. Uma burocracia mais inteligente que o normal: em vez de o arquivar fá-lo desaparecer. Os meus homens diziam que o fumavam, que todo o pedaço de papel pode ser fumado, desde que contenha algo dentro.
Era uma vantagem, aquilo de que não se gostava podia ser alterado no próximo plano. Ninguém o notaria. Parecia que podia continuar assim até ao infinito.
Tinha vontade de fumar e puxei o cachimbo. Estava, como sempre, no meu bolso. Eu nunca perdia os meus cachimbos, ao contrário dos soldados. É que tê-lo comigo era muito importante para mim. Nos caminhos do fumo pode-se percorrer qualquer distância, diria que é possível acreditar nos próprios planos e sonhar com a vitória sem que ela pareça um sonho; apenas uma realidade vaporosa pela distância e pelas brumas que sempre existem nos caminhos do fumo. Grande companheiro, este meu cachimbo. Como se pode perder uma coisa tão necessária? Que brutos!
Não eram assim tão brutos; tinham atividade e cansaço de atividade. Não é preciso pensar, mas e então para que serve um cachimbo quando não se pensa? Mas pode-se sonhar, mas o cachimbo é importante quando se sonha com o que está longe; em direção a um futuro cujo único caminho é o fumo ou um passado tão longínquo que é necessário utilizar a mesma vereda. Os anseios íntimos, porém, sentem-se contra outra parte do corpo, têm pés vigorosos e olhos jovens; não necessitam do auxílio do fumo. Os meus soldados perdiam os cachimbos porque não lhes eram imprescindíveis, e as coisas imprescindíveis não se perdem.
Teria eu algo mais desse tipo? O lenço de algodão. Mas isso era diferente. Deu-mo ela para o caso de me ferirem num braço, era uma espécie de ligadura amorosa. A dificuldade estava em usá-lo se me dessem cabo da carapaça. Na realidade havia uma solução fácil, que o pusesse na cabeça para segurar a queixada e então iria com ele para a cova. Leal até à morte. Se ficasse estendido num monte ou fosse recolhido pelos outros, não haveria lenço de algodão para ninguém; deixar-me-iam a apodrecer entre as ervas ou exibir-me-iam e talvez saísse na reviste Life com um olhar agónico e desesperado, fixo no instante do medo supremo. Porque uma pessoa tem medo, para quê nega-lo?
Com o fumo percorri os meus velhos caminhos e cheguei aos esconderijos íntimos dos meus medos, sempre ligados à morte, esse nada perturbante e inexplicável, por mais que nós, marxistas-leninistas, expliquemos a morte muito bem, ou seja, como sendo o nada. E que é esse nada? Nada. Explicação mais simples e convincente é impossível. O nada é nada; apaga o teu cérebro, coloca-lhe um manto negro, se quiseres, com um céu de estrelas distantes, e esse é o nada-nada. O seu equivalente: o infinito.
Um individuo sobrevive na espécie humana, na história – que é uma forma mistificada de vida -, nos atos e nas memórias. Nunca sentiste um arrepio na espinha dorsal enquanto lias os ataques à catanada do Maceo? Isso é a vida depois do nada. E os filhos, também. Não gostaria de sobreviver nos meus filhos: nem me conhecem, sou um corpo estranho que perturba  por vezes a sua tranquilidade, que se interpõe entre eles e a mãe.
Imaginei o meu filho já adulto e ela, de cabelos brancos, dizendo-lhe em tom de reprovação: o teu pai não teria feito isto ou aquilo. Senti dentro de mim, filho do meu pai, uma rebeldia tremenda. Eu, filho, não sabia se era verdade ou não que eu pai não teria feito isto ou aquilo de errado, mas sentia-me humilhado, atraiçoado por essa recordação de meu pai que a cada instante me lançavam à cara. O meu filho deveria ser um homem; nada mais, melhor ou pior, mas um homem. Agradeci ao meu pai o seu carinho doce e inesperado sem exemplos. E a minha mãe? A pobre velha. Oficialmente não tinha ainda o direito de chorar, devia aguardar a confirmação.
Assim andava eu, pelas minhas rotas do fumo, quando um soldado, contente por ser útil, me interrompeu:
- Não perdeu nada?
- Nada – disse, associando esse nada ao outro do meu devaneio.
- Pense bem.
Apalpei os meus bolsos. Estava tudo em ordem.
- Nada.
- E esta pedra pequenina? E vi-a no seu porta-chaves.
- Ah, foda-se.
A reprimenda golpeou-me então com uma força selvagem. Uma pessoa não perde nada que seja necessário, vitalmente necessário. E estaremos vivos se já não somos necessários? Como um vegetal, sim, mas como ser moral, não, julgo eu, pelo menos.
Senti-me imerso em recordações e observei-me a mim próprio apalpando os bolsos com rigorosa meticulosidade, enquanto a água do arroio, pardacenta de terra montanhosa, me ocultava o seu segredo. O cachimbo, primeiro o cachimbo. Ali estava ele.  Os papeis e ou o lenço devem ter flutuado. O inalador, presente; as canetas, aqui; os blocos de notas no seu forro de nylon, sim; a caixa de fósforos, presente também. Tudo em ordem. As recordações dissolveram-se.
Para a batalha levei apenas duas pequenas recordações: o lenço de algodão, da minha mulher, e o porta-chaves com a pedra, da minha mãe, muito barato este, ordinário; a pedra desprendera-se e resolvi guardá-la no bolso.
Era clemente ou vingativo, ou tão-só impessoal como um chefe, o arroio? Não se chora porque não se deve ou porque não se pode? Não teremos nós o direito a esquecer, mesmo na guerra? Será necessário disfarçar o gelo por baixo da nossa roupa de macho?
Que sei eu? Na verdade, não sei. Sei apenas que sinto uma necessidade física de que a minha mãe apareça para eu poder reclinar a cabeça no seu regaço e me diga “meu querido”, com uma ternura seca e plena e sentir no cabelo a sua mão desajeitada, acariciando-me maquinalmente, como um boneco de corda, como se a ternura lhe saísse pelos olhos e pela voz, porque os transmissores avariados não deixam que ela chegue às extremidades. E as mãos estremecem e mais do que acariciarem tocam. A ternura, porém, resvala por fora e rodeia-as, e uma pessoa sente-se tão bem, tão pequenina, tão forte. Não é necessário pedir-lhe perdão, porque ela compreende tudo. Uma pessoa sabe-o enquanto escuta esse “meu querido”...
- Está forte? A mim também está a fazer efeito. Ontem quase ia caindo quando tentava levantar-me. É que não o deixam secar bem, parece-me.
- É uma merda. Estou à espera da encomenda para ver se me trazem um tabaco cortado decente. Uma pessoa tem direito a fumar, mesmo que seja por um cachimbo, tranquila e saborosamente, não vos parece?...


Nota: Foi por causa desta entrada que quando foi transladado para Cuba a viúva pediu a uma das filhas para lhe pôr no caixão o seu lenço de algodão, que o Che levou para o Congo (o mesmo que usou em Santa Clara quando partiu o braço - e que aparece nas fotos)


Em que pensas, comandante?

Em que pensas, comandante?
Pensas no futuro da humanidade, que se não mudar de rumo caminha para a sua auto-destruição?
Comandante amigo tentastes, como Jesus de Nazaré (mas por outras vias), mudar o mundo para melhor (como Ele os teus sonhos eram desmedidos e fostes para além dos teus limites) e como Ele fostes assassinado pelo império de turno (pelas bestas da trindade dos poderes a quem tu e Ele desafiaram temerariamente) e, agora, como Ele caminhas na eternidade da memória dos povos oprimidos e explorados, como uma chama de esperança a aquecer os seus corações e a iluminar os seus caminhos.