sábado, 11 de agosto de 2012

A Pedra



(Uma entrada, muito comovente e terna, do Diário de Che Guevara no Congo)

Disse-me como se devem dizer estas coisas a um homem forte, a um responsável, e eu agradeci-lho. Nem a preocupação nem a dor me enganaram e eu tratei de não mostrar nem uma coisa nem outra. Foi tão simples!
Além disso, havia que aguardar a confirmação para estar oficialmente triste. Perguntei a mim mesmo se podia chorar um bocadinho. Não, não podia ser porque o chefe é impessoal; não é que se lhe negue o direito de sentir, simplesmente não deve mostrar o que sente sobre as suas coisas, sobre as dos seus soldados, talvez.
- Foi um amigo da família, telefonaram-lhe avisando-o de que estava gravemente doente, mas nesse dia eu tinha saído.
- Gravemente? Quase a morrer?
- Sim.
- Não deixes de avisar se houver mais qualquer coisa.
- Assim que saiba, mas não há esperanças. Creio.
O mensageiro da morte já se tinha ido e não havia ainda confirmação. Esperar era a única coisa que podia fazer. Quando a notícia oficial chegasse, decidiria então se teria ou não direito a mostrar a minha tristeza. Inclinava-me a pensar que não.
O sol da manhã golpeava forte depois da chuva. Não havia nada de estranho nisso; todos os dias chovia e depois o sol saía, começava a apertar e expulsava a humidade. Pela tarde, o arroio seria outra vez cristalino, embora nesse dia não tivesse caído muita água nas montanhas, estava quase normal.
- Diziam que a partir de 20 de Maio deixava de chover e até Outubro não cairia uma gota.
- Diziam... mas dizem tantas coisas que não são verdade.
- Será que a natureza se guia pelo calendário? Não me importava se a natureza se guiava ou não pelo calendário. Em geral, podia dizer que não me importava nada de nada, nem esta inatividade forçada, nem esta guerra idiota, sem objetivos. Bom sem objetivos não mas eles estavam tão indefinidos, tão diluídos, que pareciam inalcançáveis, como um inferno surrealista onde o castigo eterno fosse o tédio. E, além disso importava-se. Claro que me importava.
Há que encontrar uma maneira de acabar com isto, pensei. E era mais fácil pensá-lo, uma pessoa podia fazer mil planos, qual o mais tentador, depois selecionar os melhores, fundir dois ou três num, simplifica-lo, vertê-lo no papel e entrega-lo. Tudo acabava ali e havia que começar de novo. Uma burocracia mais inteligente que o normal: em vez de o arquivar fá-lo desaparecer. Os meus homens diziam que o fumavam, que todo o pedaço de papel pode ser fumado, desde que contenha algo dentro.
Era uma vantagem, aquilo de que não se gostava podia ser alterado no próximo plano. Ninguém o notaria. Parecia que podia continuar assim até ao infinito.
Tinha vontade de fumar e puxei o cachimbo. Estava, como sempre, no meu bolso. Eu nunca perdia os meus cachimbos, ao contrário dos soldados. É que tê-lo comigo era muito importante para mim. Nos caminhos do fumo pode-se percorrer qualquer distância, diria que é possível acreditar nos próprios planos e sonhar com a vitória sem que ela pareça um sonho; apenas uma realidade vaporosa pela distância e pelas brumas que sempre existem nos caminhos do fumo. Grande companheiro, este meu cachimbo. Como se pode perder uma coisa tão necessária? Que brutos!
Não eram assim tão brutos; tinham atividade e cansaço de atividade. Não é preciso pensar, mas e então para que serve um cachimbo quando não se pensa? Mas pode-se sonhar, mas o cachimbo é importante quando se sonha com o que está longe; em direção a um futuro cujo único caminho é o fumo ou um passado tão longínquo que é necessário utilizar a mesma vereda. Os anseios íntimos, porém, sentem-se contra outra parte do corpo, têm pés vigorosos e olhos jovens; não necessitam do auxílio do fumo. Os meus soldados perdiam os cachimbos porque não lhes eram imprescindíveis, e as coisas imprescindíveis não se perdem.
Teria eu algo mais desse tipo? O lenço de algodão. Mas isso era diferente. Deu-mo ela para o caso de me ferirem num braço, era uma espécie de ligadura amorosa. A dificuldade estava em usá-lo se me dessem cabo da carapaça. Na realidade havia uma solução fácil, que o pusesse na cabeça para segurar a queixada e então iria com ele para a cova. Leal até à morte. Se ficasse estendido num monte ou fosse recolhido pelos outros, não haveria lenço de algodão para ninguém; deixar-me-iam a apodrecer entre as ervas ou exibir-me-iam e talvez saísse na reviste Life com um olhar agónico e desesperado, fixo no instante do medo supremo. Porque uma pessoa tem medo, para quê nega-lo?
Com o fumo percorri os meus velhos caminhos e cheguei aos esconderijos íntimos dos meus medos, sempre ligados à morte, esse nada perturbante e inexplicável, por mais que nós, marxistas-leninistas, expliquemos a morte muito bem, ou seja, como sendo o nada. E que é esse nada? Nada. Explicação mais simples e convincente é impossível. O nada é nada; apaga o teu cérebro, coloca-lhe um manto negro, se quiseres, com um céu de estrelas distantes, e esse é o nada-nada. O seu equivalente: o infinito.
Um individuo sobrevive na espécie humana, na história – que é uma forma mistificada de vida -, nos atos e nas memórias. Nunca sentiste um arrepio na espinha dorsal enquanto lias os ataques à catanada do Maceo? Isso é a vida depois do nada. E os filhos, também. Não gostaria de sobreviver nos meus filhos: nem me conhecem, sou um corpo estranho que perturba  por vezes a sua tranquilidade, que se interpõe entre eles e a mãe.
Imaginei o meu filho já adulto e ela, de cabelos brancos, dizendo-lhe em tom de reprovação: o teu pai não teria feito isto ou aquilo. Senti dentro de mim, filho do meu pai, uma rebeldia tremenda. Eu, filho, não sabia se era verdade ou não que eu pai não teria feito isto ou aquilo de errado, mas sentia-me humilhado, atraiçoado por essa recordação de meu pai que a cada instante me lançavam à cara. O meu filho deveria ser um homem; nada mais, melhor ou pior, mas um homem. Agradeci ao meu pai o seu carinho doce e inesperado sem exemplos. E a minha mãe? A pobre velha. Oficialmente não tinha ainda o direito de chorar, devia aguardar a confirmação.
Assim andava eu, pelas minhas rotas do fumo, quando um soldado, contente por ser útil, me interrompeu:
- Não perdeu nada?
- Nada – disse, associando esse nada ao outro do meu devaneio.
- Pense bem.
Apalpei os meus bolsos. Estava tudo em ordem.
- Nada.
- E esta pedra pequenina? E vi-a no seu porta-chaves.
- Ah, foda-se.
A reprimenda golpeou-me então com uma força selvagem. Uma pessoa não perde nada que seja necessário, vitalmente necessário. E estaremos vivos se já não somos necessários? Como um vegetal, sim, mas como ser moral, não, julgo eu, pelo menos.
Senti-me imerso em recordações e observei-me a mim próprio apalpando os bolsos com rigorosa meticulosidade, enquanto a água do arroio, pardacenta de terra montanhosa, me ocultava o seu segredo. O cachimbo, primeiro o cachimbo. Ali estava ele.  Os papeis e ou o lenço devem ter flutuado. O inalador, presente; as canetas, aqui; os blocos de notas no seu forro de nylon, sim; a caixa de fósforos, presente também. Tudo em ordem. As recordações dissolveram-se.
Para a batalha levei apenas duas pequenas recordações: o lenço de algodão, da minha mulher, e o porta-chaves com a pedra, da minha mãe, muito barato este, ordinário; a pedra desprendera-se e resolvi guardá-la no bolso.
Era clemente ou vingativo, ou tão-só impessoal como um chefe, o arroio? Não se chora porque não se deve ou porque não se pode? Não teremos nós o direito a esquecer, mesmo na guerra? Será necessário disfarçar o gelo por baixo da nossa roupa de macho?
Que sei eu? Na verdade, não sei. Sei apenas que sinto uma necessidade física de que a minha mãe apareça para eu poder reclinar a cabeça no seu regaço e me diga “meu querido”, com uma ternura seca e plena e sentir no cabelo a sua mão desajeitada, acariciando-me maquinalmente, como um boneco de corda, como se a ternura lhe saísse pelos olhos e pela voz, porque os transmissores avariados não deixam que ela chegue às extremidades. E as mãos estremecem e mais do que acariciarem tocam. A ternura, porém, resvala por fora e rodeia-as, e uma pessoa sente-se tão bem, tão pequenina, tão forte. Não é necessário pedir-lhe perdão, porque ela compreende tudo. Uma pessoa sabe-o enquanto escuta esse “meu querido”...
- Está forte? A mim também está a fazer efeito. Ontem quase ia caindo quando tentava levantar-me. É que não o deixam secar bem, parece-me.
- É uma merda. Estou à espera da encomenda para ver se me trazem um tabaco cortado decente. Uma pessoa tem direito a fumar, mesmo que seja por um cachimbo, tranquila e saborosamente, não vos parece?...


Nota: Foi por causa desta entrada que quando foi transladado para Cuba a viúva pediu a uma das filhas para lhe pôr no caixão o seu lenço de algodão, que o Che levou para o Congo (o mesmo que usou em Santa Clara quando partiu o braço - e que aparece nas fotos)


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