terça-feira, 11 de novembro de 2014

memórias do meu 25 de Abril

AS MINHAS MEMÓRIAS DO 25 DE ABRIL
TESTEMUNHO

Tinha 17 anos e estava a estudar num colégio de freiras que amavam Salazar. Até aos 14 anos vivi num mundo protegido até que fui à missa do Padre Mário e soube que vivia numa mentira. Soube que a guerra colonial era injusta, que havia a PIDE e os Bufos, que o povo vivia ajoelhado e se dissesse não ao patrão era perseguido, preso e torturado. O ano de 1973 acabou mal para mim, o meu pai militar de carreira foi mobilizado para Moçambique. De lá escrevia-me lindos aerogramas onde contava histórias do seu piloto a quem chamavam de “capitão Maluco”. Veio o mês de Março e o desastre do levantamento das Caldas. Eu não entendi bem o sinal, mas no exílio Álvaro Cunhal abriu o olho e deu instruções: camaradas que vivem na zona de Lisboa se se aperceberem de movimentação militar fora do normal vão para a rua apoiar os militares para garantir que o golpe vira à esquerda. O 16 de Março foi o começo do fim do fascismo.

Nos anos 70 fartos da guerra colonial, da prisão e da tortura houve bastante agitação clandestina. Na Igreja do Rato o padre Alberto e um grupo de católicos progressistas foram presos pela PIDE. Na Igreja de Macieira da Lixa assinei o meu primeiro abaixo assinado. Vi amigos partirem para a guerra e regressarem com grandes traumas, inválidos e / ou dentro de uma caixa de pinho. Vi o Padre Mário ser preso duas vezes por pregar o Evangelho.


A mulher não tinha direitos, se fugisse ao marido que a mal tratasse perdia o direito aos filhos e se eles a quisessem de volta era lhes entregue como propriedade do marido. Não podia sair do país sem autorização do marido, não tinha direito a voto. O marido podia ver a correspondência da mulher mas era crime a mulher ver a do marido. Até no casamento Salazar metia o focinho: havia profissões femininas que as mulheres não podiam casar. Militares só podiam casar tenentes e com uma mulher com estudos e / ou dote. O mesmo para professoras em relação ao marido.


Voltando aos aerogramas do meu pai 1973/1974 ele dizia-me para não ter medo que tudo ia correr bem, que ia ver que seria tudo bom. Eu, inocentemente, pensava que o meu pai estava mais preocupado com os exames que eu (andava no antigo 7 ano).


As melhores recordações do colégio eram as aulas de organização política: a minha professora antifascista e amiga do Zeca Afonso nas aulas em vez da matéria levou um gira-discos e passávamos a aula deliciadas a ouvir o Zeca a cantar (canções proibidas). A Rádio Renascença não tinha nada a ver com a de hoje. À meia-noite na “Página Um” passava as canções proibidas (púnhamos um copo de água em cima do rádio para escondermos que estávamos a ouvir certas estações e encapávamos os livros do índex com a bandeira americana) e após o 25 de Abril, foi uma grande estação de rádio até que no 25 de novembro um cunhado de Eanes lhe deitou uma bomba.


Também o Jornal República, um grande jornal de resistência antifascista não aguentou a repressão após o 25 de novembro e perdeu-se um grande jornal.


Num lindo dia de primavera os professores e as alunas externas faltaram, fomos para uma sala de estudo e uma colega foi chamada à direção porque os pais foram buscá-la por ter sido expulsa, por causa de uma carta que uma amiga lhe escreveu e que só foi entregue nesse dia aos pais (as freiras liam as cartas, agora é crime mas antes do 25 de Abril tudo era permitido). A rapariga que era boa aluna nesse ano fez exame a todas as disciplinas do 7 ano e entrou em medicina Os pais da minha amiga trouxeram a notícia que havia um levantamento militar em Lisboa. (eles dizerem guerra, mas eu como filha de militar chamo-lhe levantamento). Foi giro de ver tanta freira alvoraçada. Deixaram sair as internas com os encarregados de educação ou credenciados por eles. Fizeram mil recomendações para não passarmos à beira do Quartel. Confesso que tive medo da dita guerra em Lisboa e que dei uma volta do caraças para não passar à beira do quartel. Quando cheguei a casa da minha avó liguei a TV e a primeira imagem que vi foram os olhos de Salgueiro Maia (aquele capitão que mais tarde soube que era o diretor da “Voz da Caserna” (uma sátira em BD à guerra colonial e que eu cheguei a ler à porta fechada) e cravos a sair das bocas das G3 e das chaimites. Me lembrei dos recados entrelinhas do meu pai e soube que ia ser bom. Foram dias de festa e de esperança, A liberdade andava por aí. Adorei ver os pides serem presos, mas foi sol de pouca dura.


No Porto, no dia 26 de Abril a festa foi grande, com a libertação dos presos políticos e com Virgínia Moura, saudando os antifascistas portuenses e agradecendo ao MFA, no Largo em frente à casa da tortura da ex-PIDE.


O 1.º de Maio livre foi algo colossal que não se consegue contar, só quem o viveu é que dá valor ao que viu, fez e sentiu. Ainda me recordo de ver um capitão de Abril, Luís Montreal, lançar cravos vermelhos para o povo de Lisboa, da boca de uma chaimite (alguém me cede uma fotografia?).


Fui passar férias a Moçambique, umas férias inesquecíveis. Fui ao primeiro comício da FRELIMO em Lourenço Marques, hoje Maputo, que o vivi intensamente. Moçambique, Terra que tenho no coração. Fui “fabricada” em Moçambique e vim nascer ao Porto em 25 de Setembro de 1956 (que passou a ser feriado em Moçambique, porque alguns anos mais tarde, num 25 de Setembro, a FRELIMO disparou o primeiro tiro pela liberdade).


Recordo-me de Vasco Gonçalves ir ao Porto é saudar o povo de uma varanda da Câmara.

Lembro-me do Otelo, o parta corações das raparigas. Que bem ficava de farda. Um galã. Lembro dos barbudos, penso que a imitar os da Sierra Maestra, naquele tempo homem revolucionário usava barba. Lembro das alegrias e também das loucuras do PREC, éramos tão jovens, tínhamos vivido tantos anos amordaçados e que numa madrugada, em que Lisboa acordou vestida de cravos, sentimos a Liberdade no ar, tínhamos sangue fresco nas guelras e apanhámos nos à solta e claro que cometemos alguns excessos, próprios da juventude.

A Grândola, o hino do MFA, o grito do povo que se agigantou: Vitória, Vitória, o Zeca, Ari dos Santos deram-me momentos de felicidade. Éramos invencíveis, ninguém nos podia roubar a Liberdade e o sonho, relaxamos as defesas e o fascista estava à espreita e o sonho acabou quando o mês de novembro se vingou.


Os meus cantores preferidos Zeca Afonso, Adriano, José Mário Branco entre outros deixaram de ser cantores proibidos e passaram a ser cantores de Abril. O nosso Zeca foi a meu ver quem melhor cantou Abril. Querido Zeca que deixaste um grande vazio, mas também um sobrinho João Afonso que é o teu retrato e que tem o teu estilo.


Mas o mais emotivo foi a libertação dos presos políticos em 26 de Abril. Ainda me encanta recordar aqueles abraços emocionantes e da chegada dos exilados a 30 de Abril, mesmo a tempo do primeiro 1 de Maio livre.


A nacionalização da banca, a reforma agrária, a alfabetação no Alentejo, a simpatia dos jovens capitães de Abril de esquerda, alguns eram uns gatos, as comunas, mas tudo isso novembro levou.
A jovem e inexperiente revolução tremeu, tremeu.... Depois de alguns ameaços tombou em novembro,.
À já me esquecia de falar no programa do MFA que ficou conhecido pelo programa dos 3 D:
Democratizar
Desenvolver
Descolonizar


Recordo o nome de alguns militares do MFA também conhecido como Movimento dos capitães:
- no comando das forças revoltosas e do COPCON, Major Otelo Saraiva de Carvalho , também fazia parte do Conselho da Revolução (durante o PREC foi o Homem forte)
- comandante no terreno mais visível: no Largo do Carmo - capitão Salgueiro Maia que após a vitória pediu o regresso ao quartel. O meu pai também pediu o regresso ao quartel, Vasco Gonçalves, Denis de Almeida, Duran Clemente (que tombou prisioneiro no 25 de novembro em direto, para grande tristeza minha) Luís Montreal (um dos militares que tomou o aeroporto de Lisboa, operação "Nova Iorque", e, depois foi para o Largo do Carmo reforçar os Homens de Salgueiro Maia e que foi o último a se render em novembro) , Ernesto Melo Antunes (mais tarde do Conselho dos Nove), Vasco Lourenço, Ramalho Eanes, Jaime Neves (estes 3 os coveiros de Abril) , meu pai comandante do MFA em Moçambique, Vítor Crespo que foi substituir o meu pai em Moçambique, Gavião, Rosa Coutinho, Paulinho Faria (a quem perdi o rastro) , Mário Tomé, Firmino Miguel, Varela da Silva, que estava em Moçambique e que nos foi buscar ao aeroporto, na Beira, com quem ficamos até termos ligação no dia seguinte para Lourenço Marques, onde estava o meu pai, os coronéis Pina e Barroso, que depois foram ministro e secretário de Estado, respectivamente, das Obras Públicas e que em 1977 me arranjaram o meu 1.º emprego, entre outros.
Do Conselho da Revolução general Spínola, que foi chamado por exigência de Marcelo Caetano que só se rendia ao Spínola (respeitado pelos militares, tinha a alcunha de “centurião romano” e tinha escrito o livro "Portugal e o Futuro", livro proibido mais lido pelos militares, foi quem primeiro quis acabar com Abril), Costa Gomes, Eurico Corvacho comandante do COPCON da Região Norte e claro o Otelo (haviam mais mas estes eram os principais comandantes)



Houve muitos mais que a minha memória apagou, talvez porque não mexeram comigo (por bem ou por mal).

Um comentário:

  1. TESTEMUNHO PARA MEMÓRIA FUTURA
    Para se algum dia tiver Alzheimer ler e recordar por breves instantes esses tempos gloriosos

    ResponderExcluir